| “Irreligião”
ou diálogo inter-religioso
Wolfgang Teske é
jornalista, educador e teólogo, cursa mestrado em
Ciências do Ambiente, “Cultura e Meio Ambiente”, na
Universidade Federal do Tocantins (UFT). wolf_teske@hotmail.com
A palavra religião se origina
do Latim, re-ligare, que significa, ligar novamente,
unir, religar. Re-ligar Deus com os seres humanos e
estes, entre si. É interessante observar que o uso da
palavra é bem antigo. Atualmente, o conceito para
“religião” é adotado para designar qualquer conjunto de
crenças e valores que compõem a fé seja individual ou de
um grupo, ou ainda, de uma denominação religiosa. O que
vem à mente, a princípio, ao se deparar com a religião é
algo bom, que promova o bem estar de alguém ou de um
grupo e construa a paz.
Agora pergunto: como
conceituar àqueles que, em nome da “religião”, semeiam a
discórdia e pregam a discriminação contra outros grupos
religiosos, difundem o preconceito e praticam atos
violentos contra àqueles que julgam ser diferentes? E
pior, falam e fazem tudo isso em nome de Deus. Agindo
dessa forma, não constroem nem a fé e muito menos a paz,
tornando-se uma “irreligião”, ou seja, não ligam nem
Deus aos seres humanos e, nem estes, entre si.
Para o hinduísmo, uma
religião não cristã, “A meta última da religião é o
amor. Todas as religiões e crenças são conseqüentemente
válidas e sua aceitação tem de ser baseada na liberdade
e numa opção consciente e espontânea. De outra forma, a
religião não teria como meta o amor”.
Recentemente, um fato de
grande repercussão chocou a sociedade carioca. Foi o
apedrejamento e destruição de imagens e utensílios do
Templo Cruz de Oxalá no bairro do Catete, no Rio de
Janeiro, por quatro jovens freqüentadores de uma igreja
evangélica da mesma região. Segundo informações da
United Religions Initiative (URI) no Brasil, denominada
de Iniciativa das Religiões Unidas, esse não foi um caso
isolado, pois vêm ocorrendo em vários pontos da cidade.
É inaceitável a atitude desses jovens que, se denominam
cristãos. Ora, se são seguidores de Jesus Cristo
deveriam conhecer os seus mandamentos e ensinamentos:
“Amar a Deus acima de todas as coisas e amar ao próximo
como a si mesmo” e mais, “Bem aventurados os que
promovem a Paz, porque serão chamados filhos de Deus” e
“Não julgueis para não serdes julgados”.
Diante desses acontecimentos,
em primeiro lugar, é necessário que se reafirme o artigo
5º, inciso VI, da Constituição Brasileira: “É inviolável
a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado
o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na
forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas
liturgias”. Bem, fica claro que cada um tem o direito de
professar o que quiser desde que não prejudique a quem
quer que seja. Essa liberdade termina onde inicia a do
outro. A Declaração Universal dos Direitos Humanos no
seu art. XVIII expressa: “Toda pessoa tem o direito à
liberdade de pensamento, consciência e religião; este
direito inclui a liberdade de mudar de religião ou
crença e a liberdade de manifestar essa religião ou
crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela
observância, isolada ou coletivamente, em público ou em
particular”.
Fatos como os que estão
ocorrendo no Rio de Janeiro, reforçam a importância de
se buscar a construção do diálogo e do respeito à
diversidade religiosa. O Programa Nacional dos Direitos
Humanos elaborado pela Secretaria Especial dos Direitos
Humanos, na proposta 110, afirma que é necessário:
“Prevenir e combater a intolerância religiosa, inclusive
no que diz respeito a religiões minoritárias e a cultos
afro-brasileiros”.
Uma das propostas aprovadas
durante o 9º Movimento pela Vida, no distrito de
Taquaruçú, em maio, foi a criação de um Círculo de
Cooperação da URI, em Palmas (TO), num claro compromisso
com a Diversidade Religiosa e Direitos Humanos.
Iniciativas como essas ajudam a construir uma sociedade
verdadeiramente pluralista tendo por base o
reconhecimento e respeito às diferenças. Cabe aos
líderes religiosos e aos fiéis refletir seriamente sobre
o assunto, banir a “irreligião” e promover o diálogo
inter-religioso na construção da paz.
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