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Palmas, 20 de junho de 2008

“Irreligião” ou diálogo inter-religioso

Wolfgang Teske
é jornalista, educador e teólogo, cursa mestrado em Ciências do Ambiente, “Cultura e Meio Ambiente”, na Universidade Federal do Tocantins (UFT).
wolf_teske@hotmail.com

A palavra religião se origina do Latim, re-ligare, que significa, ligar novamente, unir, religar. Re-ligar Deus com os seres humanos e estes, entre si. É interessante observar que o uso da palavra é bem antigo. Atualmente, o conceito para “religião” é adotado para designar qualquer conjunto de crenças e valores que compõem a fé seja individual ou de um grupo, ou ainda, de uma denominação religiosa. O que vem à mente, a princípio, ao se deparar com a religião é algo bom, que promova o bem estar de alguém ou de um grupo e construa a paz.

Agora pergunto: como conceituar àqueles que, em nome da “religião”, semeiam a discórdia e pregam a discriminação contra outros grupos religiosos, difundem o preconceito e praticam atos violentos contra àqueles que julgam ser diferentes? E pior, falam e fazem tudo isso em nome de Deus. Agindo dessa forma, não constroem nem a fé e muito menos a paz, tornando-se uma “irreligião”, ou seja, não ligam nem Deus aos seres humanos e, nem estes, entre si.

Para o hinduísmo, uma religião não cristã, “A meta última da religião é o amor. Todas as religiões e crenças são conseqüentemente válidas e sua aceitação tem de ser baseada na liberdade e numa opção consciente e espontânea. De outra forma, a religião não teria como meta o amor”.

Recentemente, um fato de grande repercussão chocou a sociedade carioca. Foi o apedrejamento e destruição de imagens e utensílios do Templo Cruz de Oxalá no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, por quatro jovens freqüentadores de uma igreja evangélica da mesma região. Segundo informações da United Religions Initiative (URI) no Brasil, denominada de Iniciativa das Religiões Unidas, esse não foi um caso isolado, pois vêm ocorrendo em vários pontos da cidade. É inaceitável a atitude desses jovens que, se denominam cristãos. Ora, se são seguidores de Jesus Cristo deveriam conhecer os seus mandamentos e ensinamentos: “Amar a Deus acima de todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo” e mais, “Bem aventurados os que promovem a Paz, porque serão chamados filhos de Deus” e “Não julgueis para não serdes julgados”.

Diante desses acontecimentos, em primeiro lugar, é necessário que se reafirme o artigo 5º, inciso VI, da Constituição Brasileira: “É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias”. Bem, fica claro que cada um tem o direito de professar o que quiser desde que não prejudique a quem quer que seja. Essa liberdade termina onde inicia a do outro. A Declaração Universal dos Direitos Humanos no seu art. XVIII expressa: “Toda pessoa tem o direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular”.

Fatos como os que estão ocorrendo no Rio de Janeiro, reforçam a importância de se buscar a construção do diálogo e do respeito à diversidade religiosa. O Programa Nacional dos Direitos Humanos elaborado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos, na proposta 110, afirma que é necessário: “Prevenir e combater a intolerância religiosa, inclusive no que diz respeito a religiões minoritárias e a cultos afro-brasileiros”.

Uma das propostas aprovadas durante o 9º Movimento pela Vida, no distrito de Taquaruçú, em maio, foi a criação de um Círculo de Cooperação da URI, em Palmas (TO), num claro compromisso com a Diversidade Religiosa e Direitos Humanos. Iniciativas como essas ajudam a construir uma sociedade verdadeiramente pluralista tendo por base o reconhecimento e respeito às diferenças. Cabe aos líderes religiosos e aos fiéis refletir seriamente sobre o assunto, banir a “irreligião” e promover o diálogo inter-religioso na construção da paz.