TENDÊNCIAS
E
IDÉIAS

Palmas, 11 de junho de 2008

Educação premiada

Wolfgang Teske
é jornalista, educador e teólogo, cursa o Mestrado em Ciências do Ambiente, Cultura e Meio Ambiente, na Universidade Federal do Tocantins (UFT)
wolf_teske@hotmail.com

Durante a semana em que se lembrou o Dia Internacional do Meio Ambiente, exatamente no dia 5 de junho, o Estado do Tocantins recebeu o Prêmio Gestão Nota 10, promovido pelo Instituto Ayrton Senna (IAS), em São Paulo. O Estado se destacou nos programas Se liga (alfabetização de repetentes) e Acelera (objetiva um ajuste do fluxo e diminuição da defasagem idade/série). Na ocasião, a cidade de Araguaína, também recebeu, entre outros 33 municípios brasileiros, o prêmio pelo Programa Escola Campeã. As premiações tiveram ampla veiculação pela mídia local pelo destaque em nível nacional, como é de praxe por parte da imprensa, a quem compete o dever de deixar a sociedade sempre bem-informada.

Para início dessa conversa, quero deixar claro que não tenho absolutamente nada contra estes prêmios que foram recebidos, pois enfim, dentro das regras pré-estabelecidas desse programa, foram merecidos. O que chamou a atenção foi o fato de que, no mesmo dia, também foi veiculado pela mídia dados e fatos tais como: Tocantins é quarto em número de mortes no trânsito; Meio Ambiente - grande quantidade de material descartado na natureza está entre os maiores problemas. Talvez alguém já questione, mas enfim, o que isso tem a ver com os Prêmios? Explico.

A educação está vivendo um tempo de profundas mudanças paradigmáticas e apesar de grande parte de educadores e programas educacionais aparentar e se apropriar de linguagens neo-paradigmáticas está, na realidade, firmada numa prática dos modelos causais tradicionais arraigados em teorias instrucionistas. Em outras palavras, a grande maioria das escolas e professores está alicerçada no poder, reproduz conhecimentos, é autoritária e prepotente. Um dos sinais mais evidentes dessa prática é a forma de avaliação do conhecimento pautado em cifras e notas e não por competências.

O sociólogo e educador Pedro Demo, baseado no pensamento quântico, afirma que tanto a educação como a cultura e a sociedade são sistemas complexos, o que exige a configuração de um novo cenário para a educação. A educadora Maria Cândida Moraes, em seu livro Pensamento Eco-Sistêmico, diz: “diante dessa complexidade se requer práticas pedagógicas mais dinâmicas, integradoras, complexas e holísticas”.

Para que o novo paradigma possa ser compreendido e assimilado é necessário sair da unidisciplinaridade e saltar para inter, multi e, principalmente, para a transdisciplinaridade. Para o romeno Baserab Nicolescu, presidente do Centro Internacional de Estudos Transdisciplinares (Ciret), há necessidade de desvendar as relações entre arte, ciência e tradição e se propor “novos modelos de pensamento que possam resgatar à cultura e à sociedade um ser humano mais completo, capaz de enfrentar os desafios da complexidade - a intrincada teia de relações entre conhecimentos, disciplinas e sistemas (naturais, culturais e econômicos) que caracteriza o mundo contemporâneo”.

Seguindo esse novo caminho, a escola e a educação sofrerão mudanças onde as intuições, o imaginário, os símbolos, os mitos e a poesia dos alunos e sociedade serão valorizados e, estes, por sua vez, correrão para o ambiente escolar. Além disso, têm-se, cada vez mais, consciência do paradigma ecológico, no qual nos conscientizamos do fato de que todos somos ecodependentes. Leonardo Boff, professor-emérito da Universidade Estadual do Estado do Rio de Janeiro, afirma: “Não podemos viver sem o meio ambiente e seus ecossistemas, que incluído o ser humano, formam o ambiente inteiro. Somos um elo da comunidade biótica”.

No novo paradigma educacional os professores serão educadores ambientais num sentido amplo. Para Boff a educação ambiental é: “educar para a arte de viver em harmonia com a natureza e propor-se repartir equitativamente aos demais seres, os recursos da cultura e do desenvolvimento sustentável”.

O resultado dessa nova educação exigirá que se trate das questões ambientais de forma global e integrada numa construção de um novo mundo onde o haverá uma convivência não destrutiva que os seres humanos estabelecerão entre si e a natureza. Nessa nova realidade, o prêmio maior não será definido por alguma organização e concedido apenas a poucos, mas será de todos.